terça-feira, 17 de abril de 2007

Movimento Perpétuo


Impressão Digital


Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.


António Gedeão


(retirado de Poesias Completas [1956-1967], Livraria Sá da Costa Editora, 10.ª Edição-1987, p. 5)

2 comentários:

MCA disse...

Belo poema. Gosto muito de António gedeão.

André Alves Correia disse...

Vou continuar a colocá-los neste espaço...