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sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Bethânia

Um clássico. Terezinha. Escrita por Chico Buarque, evidentemente.


Encontram a letra aqui.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

6 de Agosto de 1945

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Teatro do Mundo

Rio triste


Longuíssimos braços têm
os olhos que tudo abraçam.
Somente, só olhos vêem
os olhos que por mim passam.

Clandestinamente os lanço,
braços de mar, olhos de água.
Longo ser líquido avanço,
abraço a vida, e alago-a.

Destino do amor triste
que não se ouve nem se vê.
Ama apenas porque existe.
Não sabe a quem nem porquê.

Nesta obrigação de estar
que a cada um de nós cabe,
coube-me esta de amar.
E ninguém sabe.


António Gedeão

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Ad perpetuam rei memoriam



António Gedeão

(Rómulo Vasco da Gama de Carvalho de seu nome)

24 de Novembro de 1906 - 19 de Fevereiro de 1997

Eterno!


Máquina de Fogo

Meu coração é máquina de fogo
luz de magnésio, floresta incendiada.
Combustar-se é o seu próprio desafogo.
Arde por tudo, inflama-se por nada.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Teatro do Mundo

Fala do homem nascido


(Chega à boca da cena, e diz:)

Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se faz ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

António Gedeão

Lindo, este poema. E deixo-o aqui superiormente cantado por Adriano Correia de Oliveira. Faz hoje 25 anos que partiu.

A música é de José Niza.


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terça-feira, 18 de setembro de 2007

Linhas de Força

Poema da morte aparente
 
 
Nos tempos em que acontecia o que está acontecendo agora,
e os homens pasmavam de isso acontecer no tempo deles,
parecia-lhes a vida podre e reles
e suspiravam por viver agora.
 
A suspirar e a protestar morreram.
E agora, quando se abrem as covas,
encontram-se às vezes os dentes com que rangeram,
tão brancos como se as dentaduras fossem novas.
 
 
António Gedeão
 
 

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Um dia

Um dia, mortos, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar,
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 14 de agosto de 2007

A lembrar. Sempre.



Se quem com tanto esforço em Deus se atreve
Ouvir quiseres como se nomeia,
Português Cipião chamar-se deve;
Mas mais de Dom Nuno Álvares se arreia
Ditosa pátria que tal filho teve;
Mas antes pai: que, enquanto o Sol rodeia
Este globo de Ceres e Neptuno,
Sempre suspirará por tal aluno.


Os Lusíadas, VIII, 32

terça-feira, 17 de julho de 2007

Linhas de Força

À "boleia" da indignação n'A Biblioteca de Jacinto:


Poema do fecho éclair


Filipe II tinha um colar de oiro,
tinha um colar de oiro com pedras rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.

Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.

Na mesa do canto
vermelho damasco,
e a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da Terra,
foi senhor do Mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.

Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safiras, topázios,
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo,
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.

O que ele não tinha
era um fecho éclair.


António Gedeão, Poesias Completas [1956-1967], Livraria Sá da Costa Editora, 10.ª Edição-1987, pp. 146-147

terça-feira, 15 de maio de 2007

Ad perpetuam rei memoriam


Emily Dickinson

10 de Dezembro de 1830 - 15 de Maio de 1886

Poetisa Norte-americana


Two butterflies went out at noon
And waltzed above a stream,
Then stepped straight through the firmament
And rested on a beam;

And then together bore away
Upon a shining sea,—
Though never yet, in any port,
Their coming mentioned be.

If spoken by the distant bird,
If met in ether sea
By frigate or by merchantman,
Report was not to me.


(Fonte da imagem)

terça-feira, 24 de abril de 2007

[6] Leonard Cohen




Take this waltz


Now in Vienna there's ten pretty women
There's a shoulder where Death comes to cry
There's a lobby with nine hundred windows
There's a tree where the doves go to die
There's a piece that was torn from the morning
And it hangs in the Gallery of Frost
Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
Take this waltz with the clamp on its jaws

Oh I want you, I want you, I want you
On a chair with a dead magazine
In the cave at the tip of the lily
In some hallways where love's never been
On a bed where the moon has been sweating
In a cry filled with footsteps and sand
Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
Take its broken waist in your hand

This waltz, this waltz, this waltz, this waltz
With its very own breath of brandy and Death
Dragging its tail in the sea

There's a concert hall in Vienna
Where your mouth had a thousand reviews
There's a bar where the boys have stopped talking
They've been sentenced to death by the blues
Ah, but who is it climbs to your picture
With a garland of freshly cut tears?
Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
Take this waltz it's been dying for years

There's an attic where children are playing
Where I've got to lie down with you soon
In a dream of Hungarian lanterns
In the mist of some sweet afternoon
And I'll see what you've chained to your sorrow
All your sheep and your lilies of snow
Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
With its "I'll never forget you, you know!"

This waltz, this waltz, this waltz, this waltz ...

And I'll dance with you in Vienna
I'll be wearing a river's disguise
The hyacinth wild on my shoulder,
My mouth on the dew of your thighs
And I'll bury my soul in a scrapbook,
With the photographs there, and the moss
And I'll yield to the flood of your beauty
My cheap violin and my cross
And you'll carry me down on your dancing
To the pools that you lift on your wrist
Oh my love, Oh my love
Take this waltz, take this waltz
It's yours now. It's all that there is.




[5]

terça-feira, 17 de abril de 2007

Movimento Perpétuo


Impressão Digital


Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.


António Gedeão


(retirado de Poesias Completas [1956-1967], Livraria Sá da Costa Editora, 10.ª Edição-1987, p. 5)

domingo, 25 de março de 2007

O Génio

É da mais elementar justiça recordar o momento mágico de Sábado:



É o nosso "Harry Potter"!


Foto Record


E vem-me à lembrança "O Anjo de Pernas Tortas" (Garrincha), de Vinicius de Moraes:

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento,
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé de vento!

Num só transporte, a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: Gooooool!
É pura imagem: um G que chuta um O
Dentro da meta, um L. É pura dança!

terça-feira, 20 de março de 2007

Mar Novo


ESTE É O TEMPO


Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam.


Sophia de Mello Breyner Andresen



(retirado de Obra Poética II, Caminho, 3.ª Edição-1998, p. 68)

quinta-feira, 1 de março de 2007

Poema da Gaveta

Estatística


Quando eu nasci havia em Portugal
(em Portugal continental
e nas ridentes,
verdes e calmas
ilhas adjacentes)
uns seis milhões e umas tantas mil almas.
Assim se lia
no meu livrinho de Corografia
de António Eusébio de Morais Soajos.
Hoje, graças aos progressos da Higiene e da Pedagogia,
já somos quase dez milhões de gajos.

António Gedeão


(retirado de Poesias Completas [1956-1967], Livraria Sá da Costa Editora, 10.ª Edição-1987, p. 187)

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Intermezzo

© Michelle Olivier and SmugMug, Inc.

Hoje não posso ver ninguém:
sofro pela Humanidade.
Não é por ti.
Nem por ti.
Nem por ti.
Nem por ninguém.
É por alguém.
Alguém que não é ninguém
mas que é toda a Humanidade.


António Gedeão, Movimento Perpétuo, 1956